OUTRA MANEIRA DE OLHAR A VIDA

 

Passado o choque inicial e a reviravolta que transforma tudo, vem à fase de conhecer melhor a doença, entender e aceitara a situação, especialmente pela própria família. Ninguém está, verdadeiramente, preparado e nunca se espera um diagnóstico de Alzheimer, especialmente tratando-se de pessoa, dinâmica e ativa, no esplendor da sua capacidade produtiva, 53 anos, filhos adolescentes, (13 e 17 anos) à época do diagnóstico (2001), e por tudo isso, com certeza, tudo parece ainda mais cruel e desesperador.

O fato de só encontrar depoimentos de filhos adultos ou netos em que pais ou avós sofrem com DA e nada sobre esta avalanche que ocorre na vida de uma família com filhos adolescentes reforça e confirma a importância deste relato. Quem vive ou viveu situação semelhante entende o que quero expressar, pois é muito bom poder compartilhar emoções e soluções para problemas semelhantes. Ajuda a entender no como lidar, a cada etapa que nos apresenta, especialmente Alzheimer, com suas fases e facetas tão complexas.

A adaptação, para o novo momento, exige um esforço brutal de toda a família e requer a busca constante e incessante do equilíbrio, tentando a todo custo, não entrar e nem se deixar levar pelo desespero. As mudanças vão dos espaços físicos da casa, as alterações das rotinas e horários dos moradores e familiares. Em nosso caso, especial, também problemas escolares. Colegas que não entendem porque o pai da amiga diz coisas desconexas e estranhas, ou mesmo filhos que recusam trazer amigos para casa, com medo de vivenciar situações embaraçosas; baixo rendimento escolar, e por aí vai. São momentos vividos com muita tristeza, dor, angustia e às vezes revolta, até pela imaturidade, talvez por serem muito jovens e não compreenderem certas coisas da vida.

Entendo e, por experiência própria, afirmo que a maior revolução e mudança na verdade ocorre em função da necessidade premente em perceber que tem que se mudar a forma de encarar o mundo e tudo que se conhece até então. Para a própria sobrevivência é fundamental entender que se deve adquirir outra maneira de olhar a vida.

Perguntas surgem aos borbotões. Como viver a partir de então? E o futuro, o que nos reserva? Planos, projetos e sonhos são só adiados, ou nunca mais serão realizados? Penso que o melhor a fazer é aproveitar cada momento e cada minuto buscando realizar os pequenos projetos e desejos possíveis, mesmo se aparentemente bobos ou simples, como contemplar o mar a paisagem as pessoas circulando ao seu redor. Aproveitar e explorar as mínimas oportunidades até mesmo o trajeto das idas e vindas às consultas ou simplesmente reunir toda a família para uma conversa, um almoço, enquanto seja possível, pois quase que diariamente é imposto um novo limite nesse viver. Diante de tudo isso, a vida passa a ter outro gosto, outro cheiro, outro desejo, outros sonhos e passamos a valorizar cada vez mais, as pequenas coisas. A menor tarefa que ainda é realizada, pelo portador, é sempre comemorada como uma grande conquista uma verdadeira vitória.

O que nos mantém e nos sustenta, além do amor que felizmente une nossa família, é a crença que a qualquer momento podemos ouvir a notícia sobre um novo tratamento, mesmo que em teste, de uma nova pesquisa, o menor indício. Tudo nos traz alento, ascende e acalenta a esperança de um dia, e que esteja muito próximo, o grande milagre ocorra e um dedicado e abençoado cientista, descubra a cura, livrando a humanidade, definitivamente, dessa moléstia devastadora e ainda tão pouco conhecida. Que mais ninguém possa correr o risco de passar pelo que passamos um dia e ainda estamos vivendo.

Quero lembrar a todos que convivem com um portador, para a importância do abraço, do carinho e do aconchego no resgate e manutenção da dignidade, até o ultimo instante, daquela vida tão querida e preciosa, sem jamais esquecer que são eles as verdadeiras e maiores vítimas do destino.

 

Ma. Zélia de Moura Rocha

Salvador 2009