ENSINE-ME A REZAR...

 Vera Asiz

 Muitos momentos do envelhecer são encarados como teimosia, birra, atitudes ranzinzas, chatice.

Algumas pessoas eu vi envelhecerem e serem apontadas pelos próprios filhos, como pais chatos, intransigentes. Outras, por serem mais audaciosas, foram morar sozinhas em pequenos cômodos, ou em casas para idosos.

Algumas, nem tiveram tempo de incomodar, porque se foram precocemente arrebatadas por doenças ou subitamente ceifadas pela morte.

Atualmente, tenho vivenciado a velhice do meu pai, após ter acompanhado a doença e morte de minha mãe. Escrever sobre essas experiências dolorosas não estavam nos meus planos; mas como escrevo sobre o que sempre toca minha alma de forma especial, tenho sentido necessidade de desabafar essa dor, que tem consumido meu tempo, minhas forças e a alegria.

Quando digo tempo, é por que, vivemos sob o mesmo teto, e o cotidiano é vivido plenamente com as demandas exigidas pelo uso de medicações, cuidados com a higiene, alimentação controlada etc.

As forças, por que tendo ultrapassado os sessenta anos, já não as tenho de reserva para dar conta das exigências que o corpo faz para acompanhar as necessidades do outro.

A alegria, por estar assistindo o esvair-se da vida e isso não me permite cultivar razões para estar alegre.

Há mais ou menos dois anos atrás, a fragilidade do envelhecimento do meu pai começou a se manifestar com uma crise de pânico por se encontrar sozinho em casa por um período curto de tempo. Depois vieram os esquecimentos não tão comuns, as mudanças comportamentais, as atitudes rebeldes, os gastos excessivos, os descompromissos financeiros. Não conseguia entender o que estava acontecendo. As responsabilidades que sempre assumira, passaram a fazer parte de um universo que não era o dele. E de repente passaram a ser minhas, sem que eu nem soubesse ou pudesse assumi-las.

 Os médicos costumam diagnosticar esses acontecimentos como depressão. Aí, haja medicação para o combate a esse mal moderno. O que sei é que meu pai não voltou a se encontrar, apesar dos remédios. A sua ausência se faz presente estando vivo.

Não sei bem o que é pior: ausentar-se da vida ou viver ausente... Ausente ás alegrias que tentamos lhe proporcionar no presente, ausente aos estímulos antes desejados: o jogo do Vitória, as resenhas esportivas na TV. Apenas um radinho de pilha, mal sintonizado, lhe desperta o interesse, como se esse fosse o último elo que resta para conectá-lo ao presente. Ás vezes tenta juntar fragmentos da memória nos delírios e lembranças de um tempo muito distante:

 - Já deu comida ás galinhas de minha mãe?

- A praça está fraca hoje, tem muito carro parado, vão morrer de fome, esses motoristas!

-Onde está o pneu do carro? Traga aí, que eu mesmo conserto...

 De repente cai em si, como se estivesse voltando de uma longa viagem, e fica triste. Profundamente triste.

 Ás vezes, tem surtos de lucidez e diz o que pensa , emite uma opinião ou outra sobre alguma coisa, mas logo depois se recolhe no silêncio

Para mim foi, por muitos meses, difícil de entender o porquê de tantas alterações no comportamento, o que me fez tomar atitudes que iam de encontro á sua autoridade de pai. E como brigamos nesse período!

 Não temos diagnóstico, mas fala-se em mal de Alzheimer.

Doloroso acompanhar o processo de instalação dessa doença. A fragmentação da memória, a ausência de atenção, a demência, o déficit da cognição, transformaram meu pai, antes tão esperto, forte, corajoso, em uma pessoa que se ausenta cada dia mais do convívio familiar,que perde cada dia mais a autonomia, a coordenação motora, as coisas que compra, o cartão do banco onde recebe sua aposentadoria,e recentemente, começou a perder as palavras...

 Um dos momentos mais dolorosos do reconhecimento de suas dificuldades, foi quando ao tentar fazer uma oração, não conseguia lembrar. Chamou-me para perto de si e disse:

 Me ensine a rezar. Não lembro mais...

 Aproximei-me, e rezei em voz alta, o Pai Nosso e ele repetiu a oração, assim como fazemos com as crianças, assim como um dia certamente ele fez comigo.

 Naquele momento, tive a exata compreensão do seu drama; esquecer como se reza, é perder-se dentro de si mesmo. Aliás, muitas vezes o ouvi dizer que estava perdido, que queria a sua vida de volta, que estava triste sem saber por quê.

 Tenho medo, muito medo de ver esse silêncio se ampliar e se tornar completo, em vida.

 E quando esse momento chegar à minha vida, quando as palavras não mais se  manifestarem... Espero que eu possa merecer a paciência de alguém para encontrá-las,  para traduzir os meus desejos, identificar minhas necessidades. Emprestar-me a voz para dizer ás pessoas que as amo, clarear meus caminhos para que eu não tropece no escuro,fazer-me companhia quando a solidão insistir em estar presente,alegrar-me quando sentir a tristeza se enroscar no meu corpo frágil, segurar minhas mãos para ajudar a conduzir  a criança insegura que a velhice trouxe de volta...

 Nesse momento, Acho que terei meu coração partido em mais pedaços, do que já está, e certamente precisarei de alguém a quem eu  também possa pedir:

 Ensine-me a rezar!