Demência

O crescente interesse pelo envelhecimento populacional e a recente atenção nos campos de Geriatria e Gerontologia não se deve, no entanto, somente aos aspectos sócio-políticos. Revelam a necessidade de se conhecer o envelhecimento humano e a premente demanda em se estabelecer delimitações entre o processo de envelhecimento fisiológico e o patológico. Isto ajudará a superar as atuais dificuldades clínicas de diagnóstico e tratamento de doenças no indivíduo idoso. Esta delimitação tem especial importância no que se refere à avaliação cognitiva e tal limite é de difícil precisão no que diz respeito às alterações do encéfalo (Beck C et al., 2000). Isto se deve à ainda enigmática heterogeneidade com que os fatores ambientais (principalmente culturais, psicossociais e exposicionais) se associam a outros fatores (genéticos, bioquímicos e imunológicos) na expressão das manifestações cerebrais senis.

Em 1962, Kral já propunha uma distinção entre esquecimento normal e patológico. A expansão de trabalhos clínicos e de pesquisa na área de demência a partir da década de 80 levou ao desenvolvimento de critérios para categorizar as heterogêneas formas clínicas de apresentação dos distúrbios cognitivos, especialmente da memória (Levy R,1995).

Desta forma são alvos de interesse os indivíduos com síndromes demenciais instaladas e também os indivíduos com problemas de memória, insuficientes para preencher os critérios diagnósticos de demência. Esta condição é definida como comprometimento cognitivo leve (CCL) e caracteriza-se pela existência de distúrbio de memória isolado, além do que seria esperado para a idade, sem haver, no entanto, outras alterações cognitivas ou prejuízos no desempenho das atividades de vida diária (Petersen RC, 2000). Esses indivíduos correspondem ao grau 0,5 da escala de gravidade de demência. Em alguns indivíduos tal condição pode representar sinais iniciais de quadro demencial, enquanto em outros pode permanecer estável. São poucos os estudos que abordaram a prevalência do CCL, assim como os fatores preditivos de conversão do CCL para demência.. Nesses, a progressão para demência foi relacionada à idade avançada, baixa escolaridade, intensidade do distúrbio de memória, grau de atrofia hipocampal e presença de um ou dois alelos e4 da apoliproteína E.

Já a demência é uma síndrome caracterizada pelo desenvolvimento de múltiplos déficits cognitivos, particularmente o déficit progressivo e irreversível da memória, e alterações da personalidade, sendo sua evolução marcada pela interferência na capacidade funcional do indivíduo, alterando sensivelmente as suas atividades pessoais, sociais e de trabalho. A doença de Alzheimer foi assim denominada por Kraepelin anos após Alzheimer ter relatado o caso de uma senhora, com 55 anos, que morreu após doença caracterizada como demência.

Aproximadamente 5% da população com mais de 65 anos de idade apresenta quadro demencial, sendo que esta freqüência aumenta em quatro a oito vezes em grupos etários de idade superior a 80 anos (Jorm et al., 1987). A prevalência de demência no mundo difere bastante entre regiões e dentro do mesmo país. Em revisão de estudos epidemiológicos de prevalência de demência de 1994 a 2000, Lopes & Bottino (2002) encontraram referências de taxa de prevalência geral em pessoas acima de 65 anos variando de 1,1% a 14,9%, em comunidade Nigeriana e zona rural européia respectivamente. Dentro de uma mesma região, as maiores diferenças foram encontradas na Ásia (1.3%-10,8%). Entretanto, 61% dos 21 estudos analisados mostram taxa geral de prevalência entre 4.2% a 7.2%. A mesma revisão mostra a tendência ao aumento de prevalência com o aumento da idade (tendência mantida até a idade de 94 anos) e maiores taxas de prevalência em estudos realizados em zonas rurais assim como o predomínio no sexo feminino em 75% dos estudos revisados (Lopes & Botino, 2002).

A partir da década de 1980, começaram a ser registrados os primeiros estudos populacionais e de registro de casos sobre a prevalência de demência e de demência de Alzheimer no Brasil (Nitrini,1998). Em estudo realizado em Catanduva-SP, Herrera & Carameli (1998) (avaliaram 25% da população idosa residente na zona urbana, destacando-se duas principais conclusões: a Demência de Alzheimer (DA) foi a forma mais freqüente de demência e a baixa escolaridade e o sexo feminino associaram-se a maior prevalência. Xavier et al. (1999)  avaliaram a prevalência de declínio cognitivo associado ao envelhecimento em idosos octogenários no Rio Grande do Sul e constatou que 19,7% dos 66 indivíduos examinados apresentavam tal condição, sendo o problema de saúde mental mais comum nos avaliados.

Outro tipo de estudo compara a prevalência de DA e de outras doenças relacionadas na população que migrou para o Brasil com as de indivíduos não migrantes, podendo contribuir para a compreensão da influência de fatores genéticos e ambientais (Merguro et al,1998).

No Brasil, segundo estimativa em 2002, existiam aproximadamente 390 mil idosos com quadro de demência com expectativa de crescimento de 150% nos próximos 20 anos (M Scafuzca et al., 2002). Na Bahia, estima-se a existência de 50.000–300.000 portadores de demência, segundo taxa de prevalência de 5%, números superiores aos esperados para outras doenças psiconeurológicas, como Doença de Parkinson e Depressão.

A Demência de Alzheimer (DA) é habitualmente a causa principal, correspondendo geralmente a 50% dos casos, seguida pela Demência vascular (12-18%) e a associação de ambas 98-18% (McDowel I et al., 1994). A incidência anual de demência também cresce sensivelmente com o envelhecimento, de 0,6% na faixa dos 65 a 69 anos para 8,4% naqueles com mais de 85 anos (Payked et al ,1994).

A heterogeneidade de apresentações clínicas, a multiplicidade de sintomas apresentados, a variabilidade na neuropatologia, neuroquímica e genética dificultam a acurácia diagnóstica na DA, determinando que o diagnóstico definitivo de DA só seja possível através de exame anatomopatológico. A inespecificidade de exames laboratoriais e de neuroimagem para o diagnóstico de demências primárias reforçam a importância da avaliação neuropsicológica e da história clínica.

Métodos para o diagnóstico precoce da DA têm sido propostos e são bastante úteis na prática clínica e para fins de pesquisa, tornando o diagnóstico das condições que causam distúrbios cognitivos, incluindo a DA, não mais um processo de exclusão, mas um processo de identificação de características consistentes com doenças específicas. A abordagem do paciente com demência deve incluir sempre a avaliação e o monitoramento das funções cognitivas, o comprometimento funcional (atividades de vida diária) e a gravidade do quadro clínico.

Linhas de pesquisa que estudem a incidência e prevalência das demências, que incluam o comprometimento cognitivo leve (CCL), a taxa de mortalidade atribuível à DA e a influência da doença na sobrevida dos pacientes, ainda incipientes, deverão contribuir para a definição de estratégias de saúde pública. A médio e longo prazo a demência representará ônus econômico e social,  haja vista a incapacitação do indivíduo e a relacionada obrigatoriedade de um cuidador. As altas taxas de morbi-mortalidade e a necessidade de serviços especializados para suporte, a nível familiar, comunitário e institucional determinam a importância desta doença para a saúde pública.

Dr. Ailton Melo
Neurologista
Consultor Científico da ABaPAz